sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O efeito

  Ontem fui ao Circo Voador com o intuito de ver o Mundo Livre S.A. Pra falar a verdade, eu fui mesmo porque era de graça, e como curto tudo que vem de Pernambuco, achei que seria uma boa oportunidade de expor minha imagem na medina, dar uma pinta, encontrar bons amigos, tomar uma cerveja e dar uma pirada.
  De fato eu consegui tudo isso, só não consegui ver o Mundo Livre tocando. É duro assumir, mas a verdade e que já estou velha para varar a madrugada sabendo que a labuta me espera no dia seguinte. De qualquer modo, não é para falar da minha quase presença no show do Mundo Livre que estou escrevendo.
  O show que eu almejava em princípio fazia parte de um evento muito interessante, organizado por uma ONG que até então eu desconhecia chamada INSTITUTO MAIS DEMOCRACIA. Trata-se de um movimento bem legal que tem como principal objetivo investigar e tornar público quem são os grandes proprietários do Brasil, ou seja, as malditas minorias que possuem as ações das empresas mais lucrativas do país. De todo modo, também não é sobre o IMD que eu quero falar.
  Como vocês podem imaginar, o evento foi fortemente marcado por uma crítica ao sistema e o show  da banda que abriu pro Mundo Livre, não fugia à regra. Nunca tinha ouvido falar de El Efecto até ler o flyer de divulgação do evento. Não estava esperando muita coisa deles, até que alguns amigos que me acompanhavam teceram bons comentários sobre a banda. Fiquei mais curiosa quando perguntei se a banda era carioca, e eles afirmaram que sim. Banda boa, nova, carioca? Não encontro combinações como essa desde sei lá, Planet Hemp. Enfim, paguei pra ver. Quer dizer, não paguei, entrei.
  Vou confessar que musicalmente não morri de amores por El Efecto. O som deles não me causou comoção estética do jeito que um Otto faz tão lindo comigo toda vez que ouço qualquer acorde de qualquer disco de qualquer merda que ele inventa. Ou do mesmo jeito que o Criolo me surpreendeu e emocionou desde a primeira vez que ouvi Nó na orelha de cabo a rabo. Não, esteticamente eles não me pareceram incríveis, mas, ideológica e conteudisticamente me impressionaram sim, e muito.
   Fiquei feliz primeiro porque, mesmo não tendo me identificado tanto com o tipo de som que a banda faz, dá pra sacar que eles experimentam e buscam  uma linguagem musical inovadora. Mas de fato, o que mais me agradou foram as letras das canções, todas elas com críticas ao sistema capitalista from hell, que despertam em quem ouve uma revolta e uma consciência social que está faltando na galerinha mais jovem.
  Eu vinha sentindo muita falta de bandas e artistas desse tipo, capazes de fazer a galera refletir o mundo que vive, as mazelas sociais, as injustiças, a concentração de renda... Nos anos 90 ainda tivemos bandas assim, (que acabaram ficando meio vendidas no meio do caminho, como é  o caso do Rappa, por exemplo, que além de ter decaído esteticamente, deixou muito a desejar no quesito letras após a saída do Yuka), mas a primeira década do século XXI, nossa senhora, não fez nada de bom, se fez me lembrem, por favor, porque eu só consigo me lembrar de Detonautas e CPM 22. Ah, é! Teve Los Hermanos, que até mudou alguma coisa no quesito estético, mas não trouxe nenhuma veia contestatória nas suas canções. Só dor de corno mesmo.
   Quando descobri o Criolo, a minha alegria maior foi justamente essa. Senti que ele representava uma voz que estava abafada no meio musical. Artistas inovadores até que temos bastante, ainda que fora do mainstream, mas faltava um que colocasse o dedo na ferida, desse um tapa na cara da sociedade e denunciasse tudo de ruim que esse sistema nos oferece, assim na lata, sem dó nem piedade como ele faz. É claro que essa voz sempre existiu no rap, mas o Criolo foi o grande responsável por traze-la ao nosso medíocre mundinho pseudo-intelectual, através de uma musicalidade capaz de agradar a gregos e troianos.
   Enfim, se a cena musical não andava lá muito revolucionária em termos de Brasil, que dirá em termos de Rio de Janeiro. Pernambuco nunca parou de inovar, já o Rio eu nem sei se realmente inovou um dia. Tudo bem, estou exagerando (um pouco), mas perco a conta de quantos artistas e produtos incríveis Recife/ Olinda tem mandando pra gente nos últimos dez anos, enquanto que aqui  eu conto nos dedos de uma mão as paradas legais que surgem.
  Por isso,  estou botando fé que El Efecto vem para preencher essa lacuna.Se as letras de suas músicas fossem menos longas acredito que até conseguiria convencer meus alunos a levanterem de suas cadeiras e saírem às ruas para fazer a revolução comigo. Mas como não são, se elas forem capazes de pelo menos fazer renascer a cena musical carioca e despertar na galera um pensamento não alinhado ao senso comum, já vou me dar demais por satisfeita.



Um comentário:

  1. Bom dia Maria! Nos ultimos dias tenho me dedicado a ler seus textos. Não te conheço e pra te falar a verdade nem sei como cheguei aqui, foi muito na sorte, mas no fim muito gratificante. Nao sei o por que mas teus textos me tocaram bastante, sei como é essa vontade de pirar o cabeçao e nao saber onde isso vai dar, de pensar que só por que o tempo passa e as cobranças aumentam a nossa vontade de surtar geral seja obrigada a se esconder num canto. Nao, nao quero me casar. Sim, eu também acho que entregar toda a nossa existencia a uma unica pessoa é muito ariscado, e mesmo gostando do risco nos momento solitários, nao sei se valeria uma vida. Concordo muito com a sua bandeira de novas frentes para musica brasileira, pois apesar de termos muita coisa por boa ai( já ouviu karina blur? Juro, é muito bom) ainda falta uma linha de frente conteudista que jogue na cara o que pode ser feito e todo mundo finge que nao vê. Por fim e para finalizar meu momento puxa saco do dia, parabéns pela coragem e vamos deixar de deprê e ir para o bar mais próximo. Saudações rubro-negras

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